A alegria de amar na família e a riqueza do sacramento do matrimônio cristão

Neste ano tive a grande alegria de contribuir com a  Revista da Festividade de São Martinho de Lima 2016, refletindo sobre a riqueza do sacramento do matrimônio. Eis o texto:

Celebrar a festa de São Martinho de Lima com o foco na alegria do amor esponsal é um convite a todas as famílias, especialmente aos casais de namorados, noivos e esposos, a refletir sobre a qualidade do amor que vivenciam e procuram. As famílias católicas podem descobrir o prazer de “ser feliz ao fazer o outro feliz”; a alegria e a paz nascidas do empenho da própria vida na realização da vida de quem amamos.

Quando são Paulo fala do matrimônio cristão, compara-o simbolicamente à entrega total de Cristo na cruz por sua amada esposa, a Igreja: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a Igreja e se entregou por ela” (cf. Ef 5,25). O convite também se dirige às mulheres e, do casal, como sacramento, se estende a todos os membros da família. Em uma família cristã todos devem doar-se totalmente como Cristo doou-se sem reservas pela Igreja até verter água e sangue de seu lado aberto. “Grande é este mistério (sacramento)” exclamou São Paulo (cf. Ef 5,32). Reconhecer essa “qualidade de amor”, levou a Igreja a celebrar o matrimônio cristão como “sacramento”, isto é, entre os sete sinais da presença salvífica e santificadora de Cristo na Igreja e no mundo. Essa deve ser a verdadeira motivação para os casais casarem-se na Igreja. A celebração do sacramento do matrimônio não é apenas uma bênção, mas o desejo e o compromisso do casal de aumentar seu amor, não em quantidade, mas em qualidade: o amor de Cristo.

Mas como podemos falar concretamente do amor de Cristo como modelo e fonte do amor na família? Na cruz o amor do Pai se revela completamente: no Filho crucificado, Deus revela que amar é dar a vida por quem amamos (cf. Jo 15,13; 1Jo 3,16). A vida é bem vivida, quando faz sentido dá-la para outras pessoas. É o amor que dá sentido ao cansaço do trabalho, à manutenção da casa, ao socorro das fragilidades físicas e espirituais dos membros da família e à paciência na convivência com os limites e desafios pessoais de cada um.

Assim, Cristo Crucificado é o horizonte onde o amor do casal e da família pode se desenvolver plenamente. O amor de Jesus é total e fiel, Ele não guarda nada para si, não está condicionado a nada, não tenta se proteger diante da possibilidade de algo dar errado, se realiza em se entregar por inteiro. O amor de Jesus é livre, ninguém pode obrigá-lo ou coagí-lo a amar, e por isso é profundamente pessoal. O amor de Jesus é constante e exige a coerência de uma vida toda a Ele dedicada para se expressar. O amor de Jesus é fecundo, aberto a acolher na família da Igreja todos os filhos que o Pai chamar. O amor de Jesus é unitivo, pois tem seu foco e prazer na comunhão, na amizade e na celebração da convivência eterna. O amor de Jesus é misericordioso, pois cria o espaço necessário para que até os erros sejam superados e curados.

Sem essas características qualquer relacionamento humano pode ficar infantil e se esvaziar. Reconhecer a grandeza do mistério do amor de Cristo (cf. Ef 5,32) nos ajuda a reconhecer a fragilidade do nosso “amar” e a superar as tentações de auto-proteção, da auto compensação, da liberdade garantida no descompromisso ou das múltiplas alternativas caso o projeto dê errado; da ameaça do abandono; da dominação, da posse e do controle, da superficialidade da auto-realização nos bens, na beleza, no conforto, na segurança;  do fechamento aos outros, às novas vidas, à família, aos vizinhos, à comunidade humana e, finalmente,  da indiferença causada pela intensa rotina que impede o convívio dentro de casa.

Para crescer em qualidade no amor, precisamos nos voltar para sua fonte: Jesus! E Nele amadurecer e expandir nosso amor frágil no horizonte do amor divino. Esse projeto de Deus para a vida familiar não pode ser um monólogo, no qual todo o esforço parte apenas de uma pessoa, mas um diálogo no qual todos devem ter os olhos fixos em Jesus, nele receber o amor “fontal” de Deus e entrar no mesmo movimento das pessoas que Dele tudo recebem e Nele tudo doam.

Ao pensar no casal como célula matriz da família, São Paulo não exclui a realidade das famílias concretas, ou seja, daquelas que sofreram a perda de um membro, o abandono, a separação. O livro de Rute é um exemplo consolador da aliança entre sogra (Noemi) e nora (Rute) que diante do trauma da morte superam a dificuldade e, unidas, dão continuidade à história da família. É à nossa família concreta que somos chamados a valorizar, assumir e ajudar a inserir-se com convicção nesse horizonte maior do amor de Cristo. São Martinho, que soube amar e assumir sua família, em um quadro social complicado nos ajude a orientar as famílias de nossa paróquia para a verdadeira saúde e alegria do amor cristão!

Davi Alves Maçaneiro

MAÇANEIRO, Davi Alves. A alegria de amar na família e a riqueza do sacramento do matrimônio cristão. In: Revista da Festividade de São Martinho de Lima, 03-11 de dezembro de 2016. Óbidos, 2016, p. 7.

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